A semiótica de Peirce enquanto busca pela verdade

por Renan H. Baggio.

Umberto Eco nos apresenta a estarrecedora afirmação de que a semiótica poderia ser entendida como uma “disciplina que estuda tudo quanto possa ser usado para mentir” (ECO, 2014, p. 4), uma teoria da mentira, nas palavras do autor, que assim a definiu ao caracterizar como signo qualquer coisa que pudesse ser assumido como tal. A afirmação nos pega em cheio, não no fato de ser esse o real entendimento ou não de um semioticista aclamado, mas sim em pensar que a compreensão dos signos, de suas inter-relações, seus horizontes interpretativos, poderia, antes de tornar a semiótica uma disciplina para o Conhecer, consolidá-la como uma competente fundamentação teórica para a prática de enganar.

Ao que parece, esse olhar desconfiado frente a semiótica só tende a se intensificar quando avaliamos as condutas que regem a atualidade, principalmente quando nos referimos à dinâmica nas redes: bolhas que filtram, através de seus algoritmos, o comportamento dos indivíduos e os influenciam com base em suas próprias preferências; informações falsas criadas e veiculadas deliberadamente para a reafirmação constante de crenças cuja justificação é bastante duvidosa; manipulação de dados obituários em meio à pandemia com intuito de criar uma falsa e capenga sensação de competência governamental ou, então, o descaso, quando se considera os números reais. Todos esses fenômenos são de natureza semiótica, pois são produtos da interação com signos. Influenciam os interpretantes, desprezam ou modificam os objetos e fazem do real a projeção de suas vontades.

Mas, afinal, a semiótica pode ser usada como ferramenta para a mentira, para o enganar? Se tomada como uma ciência de classificação dos signos de mera função taxonômica, a semiótica não tem forças para escolher o senhor a que serve e sua intensa construção conceitual pode ser usada inclusive para mentir. Porém, o que defenderei nesse texto é que, enquanto terceira na classificação das ciências normativas de Peirce, a semiótica está profundamente enraizada na estética e na ética, portanto, o pensar semiótico é também um agir fenomenológico e deve, diante disso, lançar seus esforços na busca do bem representar ou, em outras palavras, na fiel caracterização dos fatos, o que garante a essa ciência não ser serva de ninguém, a não ser da verdade.

De modo a firmar o compromisso da semiótica com o verdadeiro na filosofia de Peirce, é imprescindível que pensemos o conceito que dá fundamento para todas as investidas intelectuais do pensador, isto é, a noção de real. Profundamente influenciado pelos escolásticos, sobretudo, Duns Scotus, Peirce assume uma postura realista em sua filosofia que o faz caracterizar o real como aquilo que independe da forma como nós o pensamos (CP, 8.12). É necessário reconhecer o traço de pura resistência que habita esse conceito e configura, em seu aspecto fenomenológico, a alteridade como uma de suas marcas. A nível metafísico, a alteridade implica a existência de um outro. Existência e resistência, tipificam, nos escritos do filósofo, a natureza da segunda categoria, ou segundidade, que se tomada, ainda que de maneira isolada, já nos alerta sobre a impossibilidade da submissão do real àquilo que dele queremos.

Por si só, a segunda categoria, embora arrebatadora em sua ação, não dá conta de explicar uma questão que se impõe de modo radical diante de seu próprio escopo: se o real é aquilo que não se submete ao que pensamos dele, há possibilidade de conhecer o que ele é? A resposta de Peirce é afirmativa, pois há, além do traço de alteridade, um elemento de permanência do real, cuja insistência garante a constante correção das representações que dele fazemos, além de possibilitar previsões de como agir no futuro. É necessário notar que esse aspecto permanente do real é o que o torna objeto de estudo de longo tempo, isto é, a correta representação de seus aspectos depende da colaboração e esforço mútuos de um coletivo de investigadores capaz de superar os limites intelectuais e materiais de seu tempo de modo a encontrar respostas satisfatórias no fim da investigação que se estende in the long run.

Essa característica coletiva da pesquisa, leva Peirce a sua segunda caracterização do real como o objeto representado na opinião final (CP, 5.407; 8.12), pois só assim é possível evitar as idiossincrasias do pensamento individual. Podemos notar ainda que tal insistência extrapola os limites da segunda categoria e exige contabilizar a ação de uma terceira: a insistência do real permite que façamos dele previsões, característica fenomenológica da mediação, mas que, por assim ser, também revela, ontologicamente, sua natureza de lei, tal é o aspecto da terceiridade.

Mas, é preciso atentar para a indagação feita por Peirce de como, em um mundo regido pela lei, se dá a diversidade onde, hipoteticamente, ela antes não existia (CP, 1.161). A regularidade não pode produzir nada de novo, pois sua tendência é se manter tal como é, nem pode a diversidade ser fruto da força bruta da existência, pois essa implica o desgaste da possibilidade. Resta compreender a diversidade como produto de um elemento originário que não pode ser sintetizado a nenhuma das duas categorias anteriores. Esse elemento primeiro, que subjaz toda a constituição do real e é responsável pela total aleatoriedade de seus componentes, é ele mesmo da natureza de uma categoria de dimensões próprias, que por ser pressuposta devido a seu caráter de liberdade e originalidade recebe o nome de primeiridade. Entende-se como produto do acaso, a nível metafísico, a natureza potencial que caracteriza a primeira categoria.  

Tomado os aspectos de resistência (segundidade) e permanência (terceiridade) do real, atrelados à possibilidade viva de sua mudança (primeiridade), cabe voltar a atenção para os desdobramentos epistemológicos do tema diante de duas questões: a) num mundo de infindável mudança, como devemos proceder na busca pela verdade? E, então, b) como devemos compreender esse conceito? Em A fixação das crenças, Peirce (2008) já nos mostra como o método científico é o único suficientemente seguro para nos aproximar do conhecimento. Ao longo dos anos, o pensador fundamenta tal segurança na teoria das inferências, na qual, abdução, dedução e indução oferecem juntas o suporte necessário para o desenvolver da ciência. Com base em sua aceitação metafísica do acaso e na operação apenas probabilística da indução, Peirce não poderia presumir a exatidão das representações, portanto, o pensador assume o Falibilismo enquanto postura epistemológica e entende a incerteza como inevitável no processo de conhecer e, como resultado, compreende que todas as proposições, mesmo aquelas tomadas como verdades antigas, estão sujeitas à refutação no longo curso da experiência (CP, 1.171). Portanto, a incerteza e a possibilidade do erro devem ser abraçadas, seja na representação, seja no objeto representado.

A consequência do posicionamento falibilista diante da possibilidade do conhecimento marca uma mudança radical no entendimento da Verdade. Esta que ao longo da história do pensamento foi almejada como o fim último da investigação, ganha, no entendimento de Peirce, uma natureza muito mais diáfana, capaz de levar em conta as categorias do real e o princípio de incerteza oriundo do Falibilismo: a verdade é uma opinião partilhada, de caráter processual, concebida como o limite de nossos esforços para conhecer a realidade, cuja busca se estende no longo curso da experiência (EP 2:457; CP, 5.407; 7.87; 6.100).

Imprimir na verdade o princípio de longo curso da experiência, ou long run, significa dizer que sua ação sempre está projetada no futuro, isto é, sua real efetivação se dá no fim da investigação, mas tal fim é bastante duro de determinar num mundo onde o acaso exerce papel atuante e o conhecimento só pode se distanciar da incerteza, mas nunca a evitar. Por isso, a natureza pública da verdade é a característica mais relevante na sua corrida pela representação do real, pois garante que os resultados sejam debatidos, encorajados ou rejeitados, pela comunidade de investigadores e isso atribui confiabilidade àquilo que apresenta, de outro modo, qualquer afirmação que não passe por essa discussão é fruto de autoritarismo e, por sua natureza, nada tem a afirmar sobre a realidade, uma vez que está submetida ao interesse de alguém, infringindo assim o pressuposto da não susceptibilidade do real à suas representações.

Somente com as noções de realidade e verdade bastante claras podemos compreender o projeto peirciano para a teoria geral dos signos. Em sua função mediadora, a semiótica lida com as formas de representação dos fenômenos, por isso sua natureza também classificatória, afinal, é preciso pensar a imensidão de signos possíveis de modo a compreender como eles atuam com todo seu vigor mediativo. Mas, antes de um fim lógico, devemos levar em conta o bem estético e ético de suas atribuições que residem na digna concepção do real, em outras palavras, o que a semiótica quer, e pode, é falar sobre o que o mundo é de fato. Por conta disso, não se pode pensar em verdade sem semiótica, ao mesmo tempo em que o contrário também é inaceitável. A verdade, enquanto pública e in futuro, deve ser para onde tende qualquer signo, revelando assim seu admirável, sua fundamental influência no crescimento contínuo da razoabilidade.

Definitivamente, devemos olhar para a semiótica como nossa redentora em meio à era da informação. Usar de todo seu escopo explicativo e fazer dele leitura indispensável no tratamento de todas as mediações que se forçam insistentemente. No passado, os franceses que se negaram a comemorar a mudança de ano na nova data imposta pelo papa Gregório XIII viraram motivo de chacota e isso resultou para o ocidente no famoso 1º de abril, ou dia da mentira, no qual ridicularizar a verdade é aceitável e objeto de entretenimento. No presente, imersos em tanta desinformação confortável às nossas crenças, devemos cuidar para que esse dia não seja substituído pelo dia da verdade, único no qual é aceitável confiar nos fatos e nos afastar, nem que seja por algumas horas, de nossas tentadoras ilusões, já que não precisamos mais de um dia específico para mentir, uma vez que jocosos são os que buscam o verdadeiro conhecimento.

Diante do exposto é imprescindível afirmar que lembrar Peirce, para fazer coro com Santaella (2020), é retomar o caminho do conhecimento, do verdadeiro, é ver na semiótica, não somente uma caracterização sígnica, mas uma conduta de vida, de espanto frente ao real e apreço por sua verdadeira compreensão. É a verdade, com todo peso peirciano do termo, que nos conduzirá ao futuro, não como lançados às cegas e aos trancos, mas caminhando lúcidos e conectados harmonicamente, de modo que mesmo em nossos desarranjos e contratempos sejamos regidos por uma única melodia, a da crescente razoabilidade.

Referências

ECO, U. Tradado de semiótica geral. Trad. Antônio de Pádua Danesi e Gilson Cesar Cardoso de Souza. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 2014. 

IBRI, I. A. Kósmos Noetós: a arquitetura metafísica de Charles S. Peirce. São Paulo: Paulus, 2015.

PEIRCE, C. S. A fixação da crença. in: Ilustrações da lógica da ciência. Trad: Renato Rodrigues Kinouchi. 2 ed. Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2008.

PEIRCE, C. S. Collected Papers of Charles S. Peirce. 8 vols. Ed. by Hartshorne, Charles, Paul Weiss and Arthur Burks. Cambridge, MA. Harvard University Press. 1931-35 e 1958.

PEIRCE, C. S. The Essential Peirce: selected philosophical writings. vol. 2 (1893-1913). Ed. by the Peirce Edition Project. Bloomington e Indianápolis: Indiana University Press.

SANTAELLA, L. Por que lembrar Peirce. Disponível em: https://redeciep.wordpress.com/2020/09/15/santaella-por-que-lembrar-peirce/. 2020. Acesso: 26/03/2021.

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