Design thinking e os três tipos de raciocínio

por Daniel Melo Ribeiro.

Resumo:

O objetivo desta reflexão é propor uma analogia entre os ciclos metodológicos do design thinking e os três tipos de raciocínio desenvolvidos por Charles Peirce: a abdução, a dedução e a indução. Argumentamos que os procedimentos metodológicos propostos pelo design thinking  – inspiração, ideação e implementação – correspondem aos tipos de raciocínio, necessários para a elaboração de hipóteses e para a validação das soluções. Nesse sentido, esta reflexão pretende reforçar que a semiótica apresenta-se como um relevante fundamento para as práticas contemporâneas do design.

Abdução, dedução e indução

Em suas reflexões sobre o método científico e sobre o Pragmatismo, Peirce aponta a relevância dos três tipos de raciocínio: a abdução, a dedução e a indução. Essas três etapas contemplam os passos necessários para que um investigador possa não somente elaborar hipóteses plausíveis, mas também colocá-las à prova. 

Entende-se por dedução “o modo de raciocínio que examina o estado de coisas colocado nas premissas (…) e que conclui pela necessária ou provável verdade dessas relações” (PEIRCE, 2010, p. 5). Em outras palavras, a dedução é a inferência necessária de um resultado a partir das evidências contidas nas premissas. 

Na dedução, ou raciocínio necessário, partimos de um estado de coisas hipotético que definimos em certos aspectos abstratos (…) Nossa inferência é válida se e somente se realmente houver tal relação entre o estado de coisas suposto nas premissas e o estado de coisas declarado na conclusão (EP2, p. 212).

Por exemplo: considerando-se que “Todo homem é mortal” e que “Sócrates é um homem”, deduz-se necessariamente que “Sócrates é mortal”. Outro exemplo, utilizado pelo próprio Peirce: partindo da premissa de que “todos os feijões deste saco são brancos” e que “estes feijões na minha mão vieram deste saco”, podemos assegurar, portanto, que “estes feijões são brancos” (CP 2.622).

A indução “consiste em partir de uma teoria, dela deduzir predições de fenômenos e observar esses fenômenos a fim de ver quão de perto concordam com essa teoria” (EP2, p. 216). Na indução, ocorre o teste de hipóteses por meio de experimentos sucessivos (se uma solução funcionar em casos semelhantes, podemos inferir que se trata de uma provável solução geral). “Perseguindo esse método de forma constante, devemos, a longo prazo, descobrir como a questão realmente se coloca” (EP2, p. 216).

Por exemplo: um determinado medicamento deve passar por inúmeros testes em diferentes tipos de paciente, a fim de assegurar sua eficácia com uma certa precisão. Outro exemplo, também trabalhado por Peirce: imagine que “todos estes feijões que estão na minha mão vieram deste saco” e que “todos estes feijões são brancos”. Seria possível inferir que, com uma certa probabilidade, “todos os feijões do saco também são brancos” (CP 2.623).

Contudo, a dedução e a indução não seriam tipos de raciocínio capazes de gerar hipóteses novas e criativas. Seria necessário apoiar-se em um outro procedimento, denominado abdução, que antecede a dedução e a indução. Segundo Peirce, “a abdução é o processo de formação de uma hipótese explanatória. É a única operação lógica que apresenta uma ideia nova” (EP2, p. 216). Assim, a criação de hipóteses não é um procedimento aleatório, baseado em tentativa e erro. Possuímos a habilidade de elaborar hipóteses a partir do estudo dos fatos, ainda que essas hipóteses demandem comprovação posterior. Nas palavras de Peirce:

A sugestão abdutiva advém-nos como num lampejo. É um ato de introvisão (insight), embora de uma introvisão extremamente falível. É verdade que os diferentes elementos da hipótese já estavam em nossas mentes antes; mas é a ideia de reunir aquilo que nunca tínhamos sonhado reunir que lampeja a nova sugestão diante de nossa contemplação (EP2, p. 227).

Assim, a abdução é um tipo frágil de argumento lógico que está ligado à nossa capacidade instintiva de optar por hipóteses plausíveis a partir de fatos surpreendentes (SANTAELLA, 2004). Contudo, Peirce reconhece que a abdução é um tipo de inferência inicial falível: as hipóteses geradas pela abdução precisam ser comprovadas pelos procedimentos de dedução e indução. “A dedução prova que algo deve ser, a indução mostra que algo realmente é operativo, a abdução apenas sugere que algo pode ser” (EP2, p. 216). Nesse sentido, os três tipos de raciocínio são complementares e reforçam a noção de que as ideias criativas na ciência não se resumem a lampejos geniais de mentes isoladas: é necessário colocar as ideias sob julgamento da experiência.

Design thinking: uma metodologia cíclica

A emergência da tendência conhecida como design thinking (BROWN, 2008) fomentou o interesse pela maneira como os designers lidam com cenários complexos para criar soluções. Em linhas gerais, essa perspectiva busca colocar o designer como um protagonista nos processos de inovação nas empresas, e não somente envolvê-lo nas etapas finais de lançamento, depois que a ideia já foi concebida. O design thinking argumenta que o modo de pensar próprio do designer, bem como sua metodologia de trabalho, poderiam estimular a proposição de novas ideias, a partir de um olhar mais empático para as pessoas que usarão os produtos ou serviços. Mas, afinal, o que haveria de especial na maneira de pensar do designer? 

Brown (2008) propõe que os projetos baseados no design thinking adotem três ciclos iterativos, denominados inspiração, ideação e implementação. A etapa da inspiração consiste na imersão do designer nas circunstâncias em torno da questão, a fim de identificar o problema mais claramente. Nesse momento, o designer observa atentamente o cenário para levantar as oportunidades e as restrições, seja de recursos disponíveis, de tempo ou de limitações mercadológicas. Nesta etapa, é fundamental que o designer observe o comportamento dos usuários em relação à atual solução avaliada e organize as informações coletadas.

A etapa da ideação consiste na materialização de ideias em protótipos testáveis. É nesse momento que o designer irá criar artefatos tangíveis (gráficos, desenhos, maquetes, modelos, rascunhos), que possam indicar soluções para os problemas levantados na etapa anterior. Nesta etapa, é importante que o designer recrute usuários para validar as ideias sugeridas, antes que a solução final possa ser desenvolvida. Assim, os feedbacks coletados a partir da observação dos testes em protótipos poderiam sugerir melhorias na solução desenhada. Cabe lembrar que os protótipos não precisam ser sofisticados ou se aproximar de maneira ideal de uma solução acabada. A ideação é uma atividade que materializa a compreensão de uma ideia ainda em estado rudimentar, mas que indicam forças e fraquezas do projeto (BROWN, 2008).

Após alguns ciclos de ideação, o projeto segue para a fase de implementação, na qual a solução é encaminhada para a produção e para o lançamento. O designer também atua nesta etapa, uma vez que seu conhecimento de toda a cadeia criativa poderá ser bastante relevante nas estratégias de comunicação, de negócios e de refinamento da solução. Contudo, a implementação da solução não significa o fim do processo: o lançamento inaugura uma nova rodada de pesquisa, testes e desenvolvimento, retomando as etapas anteriores de maneira cíclica.

Os três tipos de raciocínio aplicados ao design

Tomando como referência os modelos dos processos de design descritos acima, percebemos a presença dos três tipos de raciocínio no trabalho do designer. Em primeiro lugar, destacamos a abdução, caracterizada pelo potencial criativo do designer em elaborar hipóteses plausíveis ou produtivas (ROOZENBURG, 1993). A abdução está claramente associada à etapa inicial de inspiração detalhada no design thinking (BROWN, 2008). Trata-se do momento no qual o designer se debruça sobre os fatos e variáveis à sua disposição para criar hipóteses. Nesta etapa de abdução, o designer deve estar aberto aos estímulos externos que se manifestam no contexto do projeto, a fim de perceber relações inesperadas ou regras que ainda não foram claramente contempladas. Nesse sentido, a abdução é uma etapa essencial no processo criativo do designer. Contudo, a etapa de abdução, isoladamente, é incapaz de garantir a materialização de soluções concretas.

Num segundo momento, tendo levantado hipóteses plausíveis para o problema, o designer avança para a etapa de dedução. A dedução está associada à capacidade do designer de inferir conclusões necessárias no momento da análise (JONES, 1992), no qual o problema é decomposto em partes menores. Nesta etapa, o designer irá deduzir determinadas respostas confrontando as hipóteses e variáveis levantadas na etapa de abdução. A dedução também está relacionada ao raciocínio diagramático do designer, ou seja, à sua capacidade de inferir conclusões a partir das relações que se revelam com a construção e a manipulação de diagramas.    

Por fim, a indução está associada aos testes e experimentos em protótipos e é acionada na etapa descrita como ideação no design thinking (BROWN, 2008). Na indução, o designer submete suas hipóteses ao teste sucessivo da experiência concreta, ao sintetizar e materializar suas ideias num artefato manipulável por outros usuários. Trata-se de um procedimento imprescindível para que a solução entre em choque com a realidade que, como o próprio Peirce indicou, opera com leis que não necessariamente se comportam em conformidade com as crenças do designer.

Conclusões

Os princípios metodológicos sugeridos acima não são exclusivos do design thinking: as noções de criação (inspiração), teste (ideação) e execução (implementação) são procedimentos relativamente comuns a todo designer, ainda que não sejam explicitamente formalizados dessa maneira. Nesse sentido, o design thinking não propõe uma revolução metodológica. De fato, podemos afirmar que alguns desses procedimentos já foram sistematizados décadas antes por outros autores (BJÖGVINSSON; EHN; HILLGREN, 2012). O grande mérito do design thinking, no entanto, foi ter alçado o design a uma condição de protagonismo no cenário contemporâneo dos negócios, reforçando seu caráter social, empático e colaborativo (BJÖGVINSSON; EHN; HILLGREN, 2012, p. 101).

A reflexão acima também aponta que a semiótica tem muito a contribuir com as práticas do design, para além da teoria dos signos (NIEMEYER, 2003). Acreditamos que as considerações de Peirce sobre o método científico e sobre o Pragmatismo (SEIF, 2020) contemplam fundamentos sólidos para orientar a prática do design no cenário contemporâneo.

Referências

BJÖGVINSSON, E.; EHN, P.; HILLGREN, P. Design Things and Design Thinking:

Contemporary Participatory Design Challenges. Design Issues. Massachusetts Institute of Technology: V. 28, N. 3, 2012, p. 101+116. DOI: 10.1162/DESI_a_00165.

BROWN, Tim. Design Thinking. Harvard Business Review. v. 86, n. 6, Jun. 2008.

JONES, John Chris. Design methods. 2a. ed. New York, NY: John Wiley & Sons, 1992.

NIEMEYER, Lucy. Elementos da semiótica aplicados ao design. Rio de Janeiro: 2AB, 2003

PEIRCE, Charles. Collected Papers. HARTSHORNE, C.; WEISS, P. (orgs.), vols 1-6 e BURKS, W. (org.), vols 7-8. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931-1958. (Obra citada como CP seguido pelo número do volume e número do parágrafo).

PEIRCE, Charles. The Essential Peirce: selected philosophical writings. Peirce Edition Project. Volume 2. Bloomington, IN: Indiana University Press, 1998. (Citado como EP).

PEIRCE, C. S. Semiótica. 4. ed. Tradução José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 2010.

ROOZENBURG, N. F. M. On the pattern of reasoning in innovative design. Design Studies, v. 14, n. 1, 1993, p. 4-18.

SANTAELLA, Lucia. O Método Anticartesiano de C. S. Peirce. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

SEIF, Faouk Y. The role of pragmatism in De-sign: persevering through paradoxes of design and semiotics. Cognitio, São Paulo, v. 21, n. 1, p. 112-131, jan./jun. 2020

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